sexta-feira, 12 de julho de 2013

Capítulo 35: Magrela!


"Viver é como andar de bicicleta: é preciso estar em constante movimento para manter o equilíbrio"

Albert Einstein 

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Quando cheguei aqui em Dublin, uma das primeiras impressões que tive foi de como a cidade era pequena, se comparando a São Paulo de onde esta pessoa que vos fala procede. Tudo era novo e o deslumbre se fez presente por alguns vários dias. Andava para lá e para cá, alucinando na arquitetura da cidade, no trânsito do lado contrário e com blusas e mais blusas me protegendo do frio.

Sempre fui um cara definido, porte atlético, resistente... só que ao contrário. Saca? Magrelão, desengonçado, atrapalhado e perdido. No ano anterior a vir para cá eu fiz academia. Juro! Eu sei que parece mentira, mas não é. Para de rir.


Acredito que com a academia e uma cerveja hora ou outra  ganhei um pouco de peso (mais específico na região da barriga). Todavia, quando cheguei aqui e comecei com essas andanças diárias, cheguei a perder 7kg em apenas dois meses. Uou! Já fica a dica pra você que quer emagrecer. Quer perder peso? Pergunte-me como.

Quando me dei conta que estava começando a brincar de sumir, além de comer muito mais com a desculpa de que precisava ganhar massa, cansei de andar. Encheu o saco e eu resolvi começar a pesquisar preço de bicicleta por aqui. Quando olhei o preço das novas, ou das semi-usadas, eu não achei tão ruim a ideia de andar novamente. Mas aí um anúncio em uma fan page no Facebook me fez mudar de ideia, e por 50 euros comprei a magrela de um brasuca que estava indo embora.

Assumo que um dos motivos por eu ter comprado a bicicleta foi por conta que no início do namoro a Fanny morava do outro lado da cidade e caminhar 1h20 para ir e mais 1h30 para voltar (subida leve) perdeu a graça. No dia que comprei a bicicleta e fui na casa dela mostrá-la e fazer a surpresa, quem teve a surpresa fui eu: "Thiago, arrumei um emprego em outra cidade e estou me mudando no final de semana". Que sorte, han? Mas sobre o meu namoro isso será um capítulo adiante.

A partir desse dia comecei a pensar outro jeito de dar mais utilidade para a magrela. Além de ir e voltar para a escola e para o trabalho, queria algo mais. E, agora no verão europeu estou tendo mais oportunidades.


Comprei a bicicleta em janeiro, e o motivo pelo qual paguei barato foi pela falta de dinheiro mesmo, e porque ouvi algumas histórias de que eles costumam roubar muita bicicleta por aqui, ou partes das mesmas quando estacionadas nas ruas. Não queria chamar a atenção. Pena que o freio dela não pensa da mesma forma e o barulho que faz, consigo ter a atenção de todas as pessoas em volta em poucos segundos.

As ciclovias em Dublin são muito boas e tem por toda a parte. Inclusive quando você coloca no Google Maps uma rota de um destino que você deseja realizar, tem a opção de fazê-lo usando apenas a ciclovia. Bem bacana. E eu percebo que - salvas exceções - o pessoal respeita muito o ciclista aqui e vice-versa. As ruas são estreitas e, algumas vezes já me aconteceu de com carros estacionados eu ter de andar no meio da rua e segurar um trânsito de uns 10 carros, inclusive ônibus, etc., sem receber uma só buzina ou um xingamento. Pelo contrário, os carros diminuem a velocidade e te dão preferência. Sensacional!

Nos arredores de Dublin existem várias praias com paisagens incríveis para se conhecer, e bem perto. E é o que estou procurando fazer. Além de praticar um esporte - porque ultimamente estou mais parado que Saci de patinete - aproveito para conhecer mais da Irlanda. E, sim, com isso economizo dinheiro com transporte público. O ônibus e o luas são relativamente caros, mas oferecem um ótimo serviço, então eu não reclamo. Entretanto, se posso poupar essa grana, melhor. 

Uns meses atrás, quando ainda estava aprendendo a pedalar aqui no trânsito, era inverno e lá pelas 16h30 estava escuro. Esqueci de colocar a luz na parte da trás da bicicleta e um carro da polícia me parou. Me fizeram algumas perguntas e me alertaram para o perigo que é andar sem colete ou luz, não apenas para mim, mas especialmente para os carros. Convenci eles para não me multarem, prometendo no dia seguinte comprar estes itens. Apesar da bronca, me mostrou que a galera aqui parece ser mais consciente neste quesito.

Segue um vídeo abaixo, sem edição, curto, do passeio que fiz com a magrela no último sábado. 



Thiago "Tôca" Santos

terça-feira, 2 de julho de 2013

Capítulo 34: O Susto!

"Susto é uma ação biológica que ocorre quando uma pessoa vê algo inesperado. É uma reação do corpo humano contra possíveis ameaças, que resulta no lançamento do hormônio adrenalina na corrente sanguínea"

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Tudo bem que eu estou com saudades do meu país, mas acabar a viagem desse jeito seria uma pena. No último capítulo relatei sobre a viagem a Paris, e no parágrafo final resumi - mais ou menos - o que me aconteceu no aeroporto. Pois bem, vamos aos fatos mais detalhados. 

Estava voltando de viagem, com aquela atmosfera fantástica no ar e relembrando os últimos acontecimentos com a minha namorada, Fanny. Chegando no aeroporto, como outras vezes, ao passar na imigração há uma separação da Comunidade Européia com o resto do mundo. Brinquei com ela e falei: "Te vejo em dois minutos, não vai sentir saudades, hein?". Ela riu. 

Apresentei meu passaporte e meu visto de estudante aqui da Irlanda, que nada mais é do que uma permissão por determinado tempo que temos para estudar e trabalhar no país. Respondo uma ou duas questões sobre onde eu estudava e onde eu morava, quando o responsável pela imigração me diz:

- Não, não. Estou observando uma incoerência com os dados fornecidos. O seu endereço é outro, e eu não conheço esta escola. Você está na Irlanda há mais de oito meses e você só arrumou trabalho agora? Por favor, não se mexa. Você não tem autorização para colocar os pés fora deste aeroporto enquanto sua situação não se regularizar. Precisamos atualizar os seus dados.

- Tudo bem, sem problema. Posso apenas avisar minha namorada que está ali que eu...

- Não se mexa. Você será acompanhado até uma sala. 


Ele veio do meu lado, me acompanhou até a minha namorada e perguntou a sua nacionalidade. Ela disse que era francesa e ele a dispensou. Quando ela pediu para ficar comigo, ele respondeu que eu não poderia estar acompanhado por ninguém e a retirou da sala de desembarque. 

Detalhe que todas as pessoas da fila estavam olhando a situação e pensando o pior, lógico. Só via de canto de olho as pessoas com olhar de reprovação. Mas, apesar dos pesares, até o momento estava tranquilo. Não devia nada, não teria porque temer. 

Eles me colocaram em uma sala de vidro, sozinho e mandaram eu esperar. Começou a passar 10 minutos, 15 minutos, 30 minutos e nada. De repente ele voltou e me fez um questionário gigante: onde eu morava, quanto tempo eu estava trabalhando, porque eu vim morar na Irlanda, onde era minha escola, o que eu fazia no Brasil, etc, etc. E no final me disse que ele não estava conseguindo achar o meu número de matrícula na escola e não carimbaria meu passaporte. Além de insinuar que eu estava mentindo em algo, sendo sarcástico.

Nesta hora assumo que comecei a ficar assustado e contatei o meu irmão que trabalha em uma agência de viagens no Brasil. Pedi para ele não falar nada com meus pais, expliquei a minha situação e pedi que ele ficasse com o celular em mãos, caso eu precisasse de algo.

Começou a passar uma hora, uma hora e meia e eu trancado na sala. Estava com medo que eles tomassem o meu celular ou me proibissem de me comunicar com alguém. Neste meio tempo, o meu flatmate (pessoa que mora comigo) me ligou sem querer, e eu aproveitei e resumi a situação em 10 segundos e falei para ele ficar esperto se eu ligasse.

Minha namorada me ligando e mandando mensagem, eu respondendo pergunta atrás de pergunta toda vez que o cara voltava, o tempo passando e uma sensação de estar sozinho tomando. Em duas horas lá dentro deu para pensar muita coisa, inclusive no fato de eles me deportarem ou solicitarem que eu voltasse para o Brasil em X dias. Que final triste teria sido para esta experiência fantástica.


Por fim, ele voltou e disse: Sr. Thiago, não estamos conseguindo contatar a sua escola, e isso dificulta a nossa situação. Por favor, repita a sua história novamente. Porque você não está trabalhando há mais tempo? (Essa pergunta eu contei até 1000 para não responder do jeito que devia). 

Lá vou eu, explicar de novo a história. Cabe ressaltar que apesar do nervosismo, eu procurei me manter tranquilo aparentemente o tempo todo, tratando com educação e respondendo tudo pacientemente. Qualquer linha torta o maluco me acusa de desacato à autoridade, imagina? Setáloko!

Duas horas e meia lá, eu já pensando como seria minha recepção no Brasil, e preocupado com a minha namorada. Nossa situação já é difícil, estamos tentando agir da melhor forma e de repente algo assim? E o pior de tudo, eu sempre tomei o maior cuidado para fazer TUDO da melhor maneira possível aqui, seguindo as leis, que injusta a situação naquele momento.

Passadas quase três horas, o sujeito me volta com o meu passaporte na mão e me pergunta se eu gostaria de renovar o meu visto em outubro. Respondo que eu não sabia ainda, e ele prontamente me interrompe e diz que colocaria um adendo me proibindo de renovar o visto. Acredito que ele não tenha autoridade para fazer isso, mas sempre terei essa dúvida caso eu queira renovar. Que lixo. Logo após, me entregou o passaporte carimbado e me permitiu ir embora, me acompanhando até o corredor novamente.

Depois que eu entendi a situação toda e o exagero dos caras. Quando eu passei na imigração aqui na Irlanda, eu estava com o endereço da minha Host Family, a casa da família que eu morei, e quando eu mudei de casa nem me preocupei em mudar isso (ninguém se preocupa!). Mas era a isca que os caras precisavam para me interrogar. Eles fizeram o trabalho deles. Suspeitaram e interrogaram. Vai que... 

Mas que não passava nem uma agulha quando sai de lá, não passava. E o pior, todo aquele clima da viagem, sumiu. Deu lugar a um medo que eu nem teria o porque ter, já que estava regularizado no país. Mas quando se trata de poder, a conversa é outra. Comecei a me sentir culpado por algo inexistente. 

Nunca dei um abraço tão forte na minha namorada quando saí da sala de desembarque. Ambos aflitos e aliviados. Dia seguinte estava eu lá na Imigração regularizando o meu endereço e deixando tudo em ordem novamente. 

Mais uma pérola para a história, e mais um capítulo para este livro/blog. E outra, já fica a dica para você que está por aqui, vai viajar e tem cara de otário? Atualize o seu endereço na imigração!


Ps: Se você quiser deixar um comentário e não tem conta no Google, não tem problema. Eu autorizei os comentários para qualquer pessoa agora, só dou o meu ok antes de publicar.

Thiago "Tôca" Santos

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Capítulo 33: Bienvenue, Paris!

"Nós sempre teremos Paris"

Casablanca

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Ahhh Paris... Que cidade absurda! E mais um privilégio registrado no livro da minha vida. Obrigado, Senhor!


Talvez esta tenha sido a viagem que mais me preparei, tanto quanto a roteiro como internamente também. Procurei conversar com pessoas que estiveram lá, buscar dicas, priorizar os programas e sentir o clima antes mesmo de pisar na conhecida terra da luz. E foi tudo muito melhor do que o imaginado.

Apesar de ser conhecida como terra da luz e famosa por sua iluminação noturna, pouco vi disto tudo, afinal estive lá no final de semana do dia 21 de junho, aqui no velho mundo: solstício. Aproveitei mais a Paris diurna que a noturna, por assim dizer.

Não tenho dúvidas de que foi a viagem mais romântica que já fiz, não apenas pelo clima da cidade, mas por estar acompanhado de minha namorada, Fanny. Que por ela ser francesa, a viagem ganhou um bônus ainda maior, não apenas pela preocupação da comunicação por lá, mas por aprender mais sobre a cultura e costumes do povo, e degustar da culinária francesa que é um espetáculo!


Detalhe que no dia 21 de junho é comemorada em toda a França o Fête de la musique, que basicamente são bandas e artistas tocando em todos os cantos da cidade. Bares, restaurantes, esquinas, e alguns pontos mais estruturados nas ruas, os quais foram solicitados a Prefeitura anteriormente por eles. 

Procuramos dividir os 4 dias por áreas, andando muito a pé, de metrô e se perdendo também. Fomos nos principais pontos turísticos, mas obviamente não conseguimos fazer tudo, ainda mais se tratando de Paris. Porém procuro pensar pelo lado de que quando voltar sempre terei algo novo para conhecer. 

Torre Eiffel, Sacre Coeur, Moulin Rouge, Fête de la musique, Notre Dame, Shakespeare and Company, Jardim de Luxemburgo, Pantheon, Jardim de Rodin, Museu de Orsay, Rio Sena, Museu de Arte Moderna, Palácio de Versalhes, Museu do Louvre, Champs-Élyseés, Arco do Triunfo e Restaurante que foi gravado o filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (o qual não foi planejado e descoberto depois de 20 minutos lá dentro). 

Assim como Londres é impressionante o quanto de cultura, história, arte e conhecimento você adquire em todos os cantos, pois além de preservar toda a história, eles ainda a oferecem para as pessoas. É indescritível a sensação de estar lá, o que por vezes as fotos não transmitem nem 30% do momento.


Sou uma pessoa que há tempos adotou uma filosofia para a vida e procuro leva-la comigo sempre. Não sou adepto a comparações, e talvez mais do que isso, acho que desgostoso à elas também. Para que comparar duas coisas legais diminuindo uma e elevando a outra? Se ambas são boas, não vou diminuir nada, mas sim exaltar o privilégio de ter mais. E assim levo quase tudo em minha vida, nas minhas opiniões. Das viagens que fiz até agora, Londres e Paris foram as que mais gostei, e cheguei a conclusão que não consigo e nem quero compara-las, porque são muito diferentes. Apenas cabe ressaltar que a beleza de Paris é algo que me deixou impressionado.

Para fechar o capítulo, deixo com vocês um vídeo que gravei e editei desta cidade que, como meu irmão me disse, ficará comigo para sempre na memória.




Ah sim, quase já ia me esquecendo. Na volta da viagem, já no aeroporto de Dublin, na minha vez de passar na imigração e apresentar o meu visto irlandês, a imigração do aeroporto diz ter algo errado com algumas informações minhas, retém meus documentos, fazem alguns questionários e me deixam mais de duas horas em uma sala fechada. Mas isso é lógico, são cenas para o próximo capítulo...

Thiago "Tôca" Santos

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Capítulo 32: Leitura (quase) Obrigatória!

Percebo que tem algumas pessoas que querem comentar no meu blog, porém não conseguem devido a restrição de necessariamente precisarem ter uma conta no google para tal. Resolvi tirar esta opção e agora todos podem comentar quando quiserem, apenas terei que autorizar (para evitar spams)

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Ainda no assunto dos últimos acontecimentos do Brasil (fiz uma nota adicional no Capítulo 31), venho compartilhar um texto com vocês indicado pela minha amiga Marília do site Polarizing. O site não tem nada a ver com o manifesto, é apenas para vocês clicarem e conhecerem o trabalho dela. A indicação foi por meio do Facebook mesmo. 

Vale a leitura e a reflexão para quem tiver interesse.

Próximo Capítulo: Paris!

[...]


O brasileiro se levantou contra toda essa corrupção e violência. Um senso de indignação generalizado, de já ter tolerado demais, apanhado demais.
Mas se você foi à manifestação e usa carteirinha de estudante para ter meia-entrada, mas não é estudante, você é parte do problema. Você não tem moral para reclamar da corrupção deste país. O nome disso é hipocrisia.
(Reclame mesmo assim, por favor, porque são dois problemas diferentes.)
Se você joga bituca de cigarro no chão, você trata a cidade como o seu lixo particular. Mas a cidade é de todo mundo. As ruas estão nojentas e a culpa é sua.
A manifestação é contra você.
Ah, você é ciclista, todo orgulhoso de ser sustentável, um carro a menos, menos trânsito e CO2. Você reclama da opressão do carro, mais forte, contra a bicicleta, o mais fraco. Mas você não para no sinal. Não respeita a faixa de pedestres. Você até anda na calçada, tornando-se o opressor do pedestre.
Não se iluda: a manifestação é contra você.
Você leva o cachorro para passear e não recolhe o cocô. Ninguém admite, mas o resultado está aí: nossas calçadas são um mar de merda. Calçada não é a privada do seu totó.
A manifestação é contra você.
Você joga papel no chão, e não faltam desculpas para não fazer o que é certo. Essa merda de prefeitura que não instala lixeiras, né? Ou, saída de estádio, você toma uma cerveja e joga a lata por aí. Ah, todo mundo estava jogando. Depois vem o cara limpar. A responsabilidade não é do estado. É sua. E você, manifestante, não pode se esquivar a ela nos outros 364 dias da sua vida.
A manifestação é contra você.
Você não cumprimenta o porteiro. Você exagera horrivelmente no perfume e invade o nariz do outro. Você dirige bêbado. Você põe um escapamento superbarulhento na sua moto, que dá para ouvir a quarteirões de distância, incomoda todo mundo e compra um capacete que ajuda a isolar o som. Você obriga todo mundo do ônibus a ouvir a sua música. Você suborna o guarda ou qualquer outro serviço público. Ou ainda, você escreve textos como este, apontando o dedo contra delitos que já cometeu ou ainda comete, achando que dedo em riste exime você da responsabilidade.
Você é parte da violência. Você é parte da corrupção. Se você não mudar, o país não vai mudar. Mas não adianta todo mundo apenas demandar que “o poder” conserte as coisas. Quer mudar o país? Não esqueça de mudar a si mesmo, e pagar o preço da mudança, como um adulto.
Então, vai pra rua, que estava na hora. Mas não esquece: a manifestação é contra você.

*Inspirado em um texto lindo e corajoso da Duda Buarque.

domingo, 16 de junho de 2013

Capítulo 31: Desculpe o transtorno, estamos melhorando o país!

"Verás que um filho teu não foge à luta"

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Ao longo da última semana procurei não expor minha opinião nas redes sociais ou mesmo entre amigos sobre os últimos acontecimentos no Brasil, mais especificamente em minha cidade São Paulo. Busquei ler, conversar com as pessoas no Brasil e assim formular a minha opinião a respeito, a qual compartilho com vocês agora de forma resumida.

Sempre achei conversas de família, rodas de amigo, ou discussões em sala de aula pouco eficientes. Apesar de importantes por gerarem conciência e opiniões, pouco úteis para a realidade. Do que adianta reclamarmos tanto, se pouco fazemos por isso e continuamos conformados e acomodados com a situação? E eu me incluo nisto também, apesar do desconforto, pouco fiz por isto também. Trabalhei vários anos na área social e procurei fazer minha parte, mas, por vezes, desesperado por questionar se estava fazendo a diferença realmente.

Ao ler as notícias sobre os protestos e manifestos no Brasil esta última semana, fiquei admirado pela ação do povo em cansarem de ser "manifestantes de sofá" e irem para as ruas, algo que o brasileiro não está acostumado e fazer, e talvez por isso, ainda não saiba fazer, mas está aprendendo e querendo.

Sei que os 0,20 centavos do ônibus foram o estopim para o problema todo, o qual é muito maior do que isto, mas me pergunto: por que agora especificamente? Tivemos tantas coisas mais impactantes do que isto no passado, mas não tivemos a mesma reação. E não, não é uma crítica, apenas uma curiosidade.

Quando li a respeito das primeiras manifestações e a briga com a polícia pensei: Mas essa não é a nossa luta, esse não é o nosso objetivo. O real problema é diferente. Sei que a mídia pode ser manipulante, mas atos de vandalismo e destruição fazem o manifestante perder a sua causa, bem como atos de violência por parte da polícia não serem justificadas também. Pessoas saem as ruas para brigar, conflitar, destruir, e assim dão motivo para iniciarem o vadalismo e a coisa toda, e parece que tudo se perde novamente.

Creio que possa ser uma minoria, agentes infiltrados ou mesmo um povo que ficou calado por muito tempo, e agora que acordou se tornou um gigante descontrolado de raiva. 

Posso estar enganado, mas penso que mais de 85% dos manifestantes não se lembram em quem votaram para senadores, deputados e vereadores nas últimas eleições, querendo ser os novos Che's, reclamando da polícia agora e semana que vem pedindo a sua ajuda quando o perigo as sonda. 

Pessoas as quais baixam filmes e séries piratas, cd's e dvd's de diversas bandas, fazem carteirinhas falsificadas de estudantes, sonegam impostos, usam o tempo, objetos e o próprio trabalho para assuntos pessoais. E não me venham com a ladainha de que os preços são injustos, os impostos altos, etc. Um erro não se justifica pelo outro, velha frase a qual diariamente esquecemos.

Entretanto, estas pessoas nas ruas, está energia mobilizando centenas delas, pode ser o começo de uma mudança. Certo? É o primeiro passo. Pode ser pequeno agora, mas grande no futuro. Hoje mesmo li a frase, em um carrinho de bebê: "Minha mãe está reivindicando por um melhor país para mim no futuro". 

Mais de 27 cidades pelo mundo estão de mãos dadas com o Brasil e mostrando que apesar da distância estamos todos juntos nesta causa. E hoje tive a oportunidade de participar de uma manifestação aqui em Dublin. Protesto este que reuniu pessoas cansadas de serem feitas de palhaços pelo governo, mas que mostraram a sua força no silêncio, na paz, em um protesto muito bacana.

Como minha mãe me disse esses dias, o povo andando pelas ruas em silêncio, mostrando a sua força, gera um clima medonho, assustador. E eu acredito que é assim que tem que ser. Vamos reivindicar, vamos sair nas ruas sim, mas lembrando que é uma via de duas mãos, todos temos responsabilidades e deveres e as nossas ações terão as suas consequências também. 

Esta é apenas a minha opinião, se a sua é diferente, bacana. Vamos dialogar, discordar e seguir adiante. Mas não deixemos isto se transformar em outro conflito. Porque entre a discórdia e o conflito existe uma diferença muito grande.  




Nota: Depois de cinco dias em que escrevi este post, vejo que aos poucos estamos dando os primeiros passos e colocando metas e objetivos, um dos quais já alcançamos e o povo venceu. Orgulho de ser brasileiro e estar fazendo história. Parabéns Brasil, Parabéns Povo! 

Thiago "Tôca" Santos

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Capítulo 30: ( ) Desempregado (X) Empregado

"O melhor presente Deus me deu, a vida me ensinou a lutar pelo que é meu"

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Como desejei escrever sobre este capítulo anteriormente, e agora ele se faz possível. Cacild's! Mas vamos começar pelo começo. Em outubro de 2012, quando eu resolvi vir... ah, ok! Não tão começo assim.

Pois é, caros leitores, por meio deste humilde blog venho lhes dizer que não sou mais um colaborador do índice de desemprego da Irlanda, ou pelo menos não por enquanto. Com empenho, paciência e dedicação consegui um trabalho. 

E, antes de mais nada, muito obrigado por toda a torcida e força que vocês me deram. Isso conta muito quando você está na luta, por vezes desanimado e cansado. E continua fazendo a diferença. 


Não é novidade para ninguém a minha procura por trabalho aqui na Europa. Afinal, este era o segundo objetivo da viagem, pós-estudos. E também a pergunta que mais ouvi nos últimos meses: "E aí, conseguiu trampo?". 

No meio do mês de maio, fui chamado para uma entrevista em uma empresa. De terno e bicicleta fui lá eu fazer o processo seletivo. Vinte pessoas para três vagas. O trabalho? Door to door (Porta em porta). O que é isso? Uma coisa extremamente chata e que espero nunca mais fazer na vida. Agradeço aos céus por existirem pessoas qualificadas para tal emprego, e que gostem do mesmo, porque definitivamente não é o meu caso. Se você é chato, insistente e inconveniente está aí uma bela oportunidade de trabalho para você.

Após dois dias de entrevistas, treinamentos e um teste, recebi o resultado: consegui uma das três vagas. Sensacional, né? Só que não. Me prometeram salário fixo, e nos primeiros dias do trabalho vi que não era verdade. Me falaram que trabalharia X horas por semanas, e era praticamente o dobro. Trabalhei de graça alguns dias e descobri que não receberia salário no primeiro mês (pois estaria em desenvolvimento). Bem meu amigo, aí foi o basta. Pensei, refleti, conversei com minha família, com meus amigos, com minha namorada. Não queria jogar algo pro alto, chutar uma oportunidade que de repente poderia me abrir portas. Coloquei em minhas preces, e o meu coração falou mais alto e eu resolvi sair e continuar procurando. Quando você está em uma situação onde não há respostas, o dinheiro na conta nem mandando lembranças, e tentando se virar "sozinho" em um local diferente, tudo ganha intensidade, e é por isso que fazer essa escolha não foi algo tão fácil.

Quanto mais eu penso, mais confuso eu fico.

Pois bem, passado o drama, continuei entregando currículos e abordando uma nova técnica. Buscando oportunidades de emprego online, pesquisando o endereço e indo lá pessoalmente com meu currículo em mãos conversar com a pessoa responsável. E foi assim que achei um restaurante, mais ou menos próximo da minha ex-escola de inglês. Eles estavam precisando de Kitchen Porter e eu fui conversar com o Chef. Ele trocou uma ou duas palavras e disse que já estava treinando uma pessoa. Agradeci e continuei andando pela cidade. Passou uns 30 minutos e este Chef me ligou solicitando que eu retorna-se ao local. Chegando lá conversamos mais um pouco e eu procurei mostrar bastante motivação para fazer um teste. Ele então marcou comigo dia tal, hora tal, venha e nós vamos te avaliar (depois descobri que a pessoa que estava fazendo o teste fez um erro grave e por isso não foi aprovada).

Apesar de ser subemprego - afinal Kitchen Porter (em uma linguagem bonita) é a pessoa responsável pela organização e limpeza da cozinha, mas em uma linguagem real, é o famoso "lava-prato" - procurei conversar com meus flatmates que já tinham tido a experiência, pesquisar na internet e me preparar como se fosse uma entrevista de emprego em uma empresa. Cabe aqui dividir com vocês algo que dividi com um amigo estes dias, que talvez nunca havia revelado para ninguém, mas que tinha dentro de mim. Talvez por ter pais e irmãos que tiveram experiências com sub-emprego, amigos próximos que dividiram comigo suas experiências neste sentido, sempre sentia um vazio por eu nunca ter tido isso também. Pode soar tolo, um psicólogo, que já atendeu clinicamente e já teve trabalhos mais qualificados falando isso, mas certas coisas nós carregamos conosco e apenas nós temos a devida consciência. Queria ter essa vivência, saber entender o meio apenas como um processo para eu chegar ao final, economicamente no caso. Poder dizer que eu comecei de baixo também.  Ter uma outra visão sobre trabalhos pouco valorizados, mas pesados e que exigem bastante empenho. E que agora estou tendo a chance de desempenhar. 

Uau, me empolguei! Mas, voltando a história. Fiz o teste, errei pra caramba o lugar onde guardavam as coisas, perguntei dez vezes como fazer isso ou como lavar aquilo da maneira apropriada, senti que preciso e muito melhorar a minha agilidade para fazer as coisas e fui aprovado. Apesar de não ter tantas horas como gostaria e como necessito, foi o passo inicial, e estou feliz com o resultado. 

Não paro por aqui, a procura por algo melhor sempre continua, e a motivação para atingir os objetivos persiste. Até porque esse tipo de trabalho é temporário. Mas precisava narrar esta história para vocês, e escrever mais uma capítulo para este livro-blog da minha viagem.

"Tente não se tornar um homem de sucesso, mas sim um homem de valor"

Se você quiser saber mais sobre oportunidades de trabalho, mais detalhes sobre as profissões, ou sobre a vida na Irlanda mesmo, além do meu blog, tenho vários outros aqui listados nesta coluna do lado direito. Vale o clique também.

Thiago "Tôca" Santos

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Capítulo 29: O Sol.

"E se quiser saber pra onde eu vou, pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou"

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Antes de ler texto abaixo, veja esta propaganda. Sempre lembro dela no verão, e assim você já entra no clima do post. Um minuto, para de ser preguiçoso. Coloca o fone para o chefe não ouvir.


Ahhhh... o verão!

[...]

Arnesto, cheguêmo no verão aqui na Irlanda! Ou quase isso.

Sempre fui um cara que gostei de tempo fechado, nublado, frio, típico em São Paulo alguns dias ao ano. Dizia não gostar do calor e sempre reclamava do sol. Engraçado como algumas opiniões mudam. 

Já descrevi sobre o tempo aqui no velho mundo neste post aqui! Mas hoje quero apenas relatar algo que nunca dei tanto valor na vida, algo banal, que está aí diariamente, mas que quando observado e vivido, se tornou absurdamente relevante nesta aventura.

O sol.


Pode parecer idiota, mas não é. Durante o ano todo, com suas 52 semanas, apenas 2 ou 3 tem sol por vários dias consecutivos por estes lados do oceano. Geralmente é entre os meses de abril e maio, mas como este o ano o inverno atrasou, o verão consequentemente também.

Quando eu tinha o tempo "deprê" que descrevi acima alguns dias no ano, era fácil falar que gostava. Quando ele se tornou presente diariamente, a partir do momento que vem o novo, o diferente, o calor, ele ganha uma intensidade absurda. 

Continuo preferindo o frio (não extremo) que ao calor, mas confesso que sair de casa, sentar exposto ao sol, bebendo uma Guinness, e curtindo a noite apenas começar às 23h, é sensacional!

A única coisa que venho notando de uns tempos para cá no banho, é que com a falta de sol, o meu corpo está da cor das minhas nádegas (b.u.n.d.a.). Não tem mais aquela diferença de cor. Estou começando a brincar de ficar transparente.

Apenas os fortes entenderão esta mensagem subliminar. 

Thiago "Tôca" Santos