"Susto é uma ação biológica que ocorre quando uma pessoa vê algo inesperado. É uma reação do corpo humano contra possíveis ameaças, que resulta no lançamento do hormônio adrenalina na corrente sanguínea"
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Tudo bem que eu estou com saudades do meu país, mas acabar a viagem desse jeito seria uma pena. No último capítulo relatei sobre a viagem a Paris, e no parágrafo final resumi - mais ou menos - o que me aconteceu no aeroporto. Pois bem, vamos aos fatos mais detalhados.
Estava voltando de viagem, com aquela atmosfera fantástica no ar e relembrando os últimos acontecimentos com a minha namorada, Fanny. Chegando no aeroporto, como outras vezes, ao passar na imigração há uma separação da Comunidade Européia com o resto do mundo. Brinquei com ela e falei: "Te vejo em dois minutos, não vai sentir saudades, hein?". Ela riu.
Apresentei meu passaporte e meu visto de estudante aqui da Irlanda, que nada mais é do que uma permissão por determinado tempo que temos para estudar e trabalhar no país. Respondo uma ou duas questões sobre onde eu estudava e onde eu morava, quando o responsável pela imigração me diz:
- Não, não. Estou observando uma incoerência com os dados fornecidos. O seu endereço é outro, e eu não conheço esta escola. Você está na Irlanda há mais de oito meses e você só arrumou trabalho agora? Por favor, não se mexa. Você não tem autorização para colocar os pés fora deste aeroporto enquanto sua situação não se regularizar. Precisamos atualizar os seus dados.
- Tudo bem, sem problema. Posso apenas avisar minha namorada que está ali que eu...
- Não se mexa. Você será acompanhado até uma sala.
Ele veio do meu lado, me acompanhou até a minha namorada e perguntou a sua nacionalidade. Ela disse que era francesa e ele a dispensou. Quando ela pediu para ficar comigo, ele respondeu que eu não poderia estar acompanhado por ninguém e a retirou da sala de desembarque.
Detalhe que todas as pessoas da fila estavam olhando a situação e pensando o pior, lógico. Só via de canto de olho as pessoas com olhar de reprovação. Mas, apesar dos pesares, até o momento estava tranquilo. Não devia nada, não teria porque temer.
Eles me colocaram em uma sala de vidro, sozinho e mandaram eu esperar. Começou a passar 10 minutos, 15 minutos, 30 minutos e nada. De repente ele voltou e me fez um questionário gigante: onde eu morava, quanto tempo eu estava trabalhando, porque eu vim morar na Irlanda, onde era minha escola, o que eu fazia no Brasil, etc, etc. E no final me disse que ele não estava conseguindo achar o meu número de matrícula na escola e não carimbaria meu passaporte. Além de insinuar que eu estava mentindo em algo, sendo sarcástico.
Nesta hora assumo que comecei a ficar assustado e contatei o meu irmão que trabalha em uma agência de viagens no Brasil. Pedi para ele não falar nada com meus pais, expliquei a minha situação e pedi que ele ficasse com o celular em mãos, caso eu precisasse de algo.
Começou a passar uma hora, uma hora e meia e eu trancado na sala. Estava com medo que eles tomassem o meu celular ou me proibissem de me comunicar com alguém. Neste meio tempo, o meu flatmate (pessoa que mora comigo) me ligou sem querer, e eu aproveitei e resumi a situação em 10 segundos e falei para ele ficar esperto se eu ligasse.
Minha namorada me ligando e mandando mensagem, eu respondendo pergunta atrás de pergunta toda vez que o cara voltava, o tempo passando e uma sensação de estar sozinho tomando. Em duas horas lá dentro deu para pensar muita coisa, inclusive no fato de eles me deportarem ou solicitarem que eu voltasse para o Brasil em X dias. Que final triste teria sido para esta experiência fantástica.
Por fim, ele voltou e disse: Sr. Thiago, não estamos conseguindo contatar a sua escola, e isso dificulta a nossa situação. Por favor, repita a sua história novamente. Porque você não está trabalhando há mais tempo? (Essa pergunta eu contei até 1000 para não responder do jeito que devia).
Lá vou eu, explicar de novo a história. Cabe ressaltar que apesar do nervosismo, eu procurei me manter tranquilo aparentemente o tempo todo, tratando com educação e respondendo tudo pacientemente. Qualquer linha torta o maluco me acusa de desacato à autoridade, imagina? Setáloko!
Duas horas e meia lá, eu já pensando como seria minha recepção no Brasil, e preocupado com a minha namorada. Nossa situação já é difícil, estamos tentando agir da melhor forma e de repente algo assim? E o pior de tudo, eu sempre tomei o maior cuidado para fazer TUDO da melhor maneira possível aqui, seguindo as leis, que injusta a situação naquele momento.
Passadas quase três horas, o sujeito me volta com o meu passaporte na mão e me pergunta se eu gostaria de renovar o meu visto em outubro. Respondo que eu não sabia ainda, e ele prontamente me interrompe e diz que colocaria um adendo me proibindo de renovar o visto. Acredito que ele não tenha autoridade para fazer isso, mas sempre terei essa dúvida caso eu queira renovar. Que lixo. Logo após, me entregou o passaporte carimbado e me permitiu ir embora, me acompanhando até o corredor novamente.
Depois que eu entendi a situação toda e o exagero dos caras. Quando eu passei na imigração aqui na Irlanda, eu estava com o endereço da minha Host Family, a casa da família que eu morei, e quando eu mudei de casa nem me preocupei em mudar isso (ninguém se preocupa!). Mas era a isca que os caras precisavam para me interrogar. Eles fizeram o trabalho deles. Suspeitaram e interrogaram. Vai que...
Mas que não passava nem uma agulha quando sai de lá, não passava. E o pior, todo aquele clima da viagem, sumiu. Deu lugar a um medo que eu nem teria o porque ter, já que estava regularizado no país. Mas quando se trata de poder, a conversa é outra. Comecei a me sentir culpado por algo inexistente.
Nunca dei um abraço tão forte na minha namorada quando saí da sala de desembarque. Ambos aflitos e aliviados. Dia seguinte estava eu lá na Imigração regularizando o meu endereço e deixando tudo em ordem novamente.
Mais uma pérola para a história, e mais um capítulo para este livro/blog. E outra, já fica a dica para você que está por aqui, vai viajar e tem cara de otário? Atualize o seu endereço na imigração!
Ps: Se você quiser deixar um comentário e não tem conta no Google, não tem problema. Eu autorizei os comentários para qualquer pessoa agora, só dou o meu ok antes de publicar.
Thiago "Tôca" Santos










